Já ouviu falar de "música generativa"?

É um termo cunhado pelo músico Brian Eno e usado para descrever uma música que está em constante mudança e cujas mudanças são geradas por um sistema automatizado ou autônomo. É "música que cria a si própria", nas palavras dele.

Mas eu não sabia disso até encontrar o app Mubert, que se descreve dessa forma.

Ele é bem simples: você entra e seleciona um gênero ou uma vibe. Entre os gêneros, estão techno, house, ambient etc e, entre as vibes, estão work, study, meditate, dream e uma chamada "high", cujo propósito eu posso apenas confabular... 👼🏻

Feita sua opção, o app começa a tocar música.

Confesso que experimentei com um pé atrás. Preconceito mesmo. Música é arte, e arte não pode ser automatizada. Ao menos não ainda, ao menos não com resultados satisfatórios. Mas fui surpreendido.

As músicas são de alta qualidade, aparentemente montadas a partir de fragmentos criados por produtores musicais de carne e osso. O algoritmo não faz muito além de uma seleção, colagem e mixagem instantânea das batidas e das linhas melódicas para montar um som que se encaixe no gênero ou na vibe que você escolheu. Com ótimos resultados.

A música não para nunca, sempre se renova um pouco antes do momento no qual eu potencialmente começaria a achá-la repetitiva, e tem qualidade excelente — tanto estética quanto técnica.

Outra coisa legal é que você pode indicar caso tenha gostado ou desgostado particularmente do trecho que está tocando na hora. Assim, de alguma forma, o algoritmo vai aprendendo os seus gostos e acertando cada vez mais.

O app é gratuito e tem versão para iOS/tvOS e Android. Você pode pagar pela versão Premium, que no iOS custa um pouco menos de R$20 por mês, e cuja principal vantagem dessa versão é você poder usar um seletor de intensidade para deixar a música mais calma ou mais intensa. Na versão gratuita, só dá para ouvir com a intensidade padrão, que é bem ok.


Conflituoso

Eu amo música e adoro conhecer a fundo os artistas e álbuns que ouço. Adoro ler as letras no Genius ou no SongMeanings e descobrir os contextos por trás do que está sendo cantado. Me amarro em descobrir coisas através de ligações entre as pessoas por trás das obras — coisas do tipo "ah, Fulano que eu gosto produziu um álbum dessa banda que eu não conheço, cujo baixista também toca com essa outra galera que eu já ouvi falar". E assim eu vou enchendo a minha playlist "Álbuns na fila" com coisas pra conhecer depois.

O Mubert não oferece a possibilidade desse tipo de relação que eu tenho com música e, por isso, é "sem graça". Sim. Concordo.

Mas para quem faz atividades de trabalho ou de estudo que exigem alta concentração — ou para quem simplesmente tem problemas de foco e propensão a deixar o pensamento se esvoaçar por aí enquanto deveria estar trabalhando — esse tipo de música repetitiva, sem letra e mais funcional do que emocional às vezes cumpre um papel importante.

No meu caso, não dá pra ouvir Streetlight Manifesto ou Mike Viola enquanto trabalho. Ao menos não sem começar a cantar junto, mentalmente ou não. Como eu trabalho com a parte verbal da mente, essas músicas sequestram a cognição que eu deveria estar usando no trabalho.

E a ascenção das rádios live estilo lo-fi hip radio beats to relax/study to no YouTube (já assimiladas pelo Spotify e pelo Apple Music, entre outros serviços de streaming) mostra que eu não estou sozinho. Em muitos momentos, as pessoas querem músicas não-intrusivas, que sejam condutivas a um estado de flow que nada tem a ver com a música em si.

Um exemplo particularmente loko

Apesar do estilo de música ser diferente, o Mubert oferece isso de um jeito ainda melhor que esses streams e playlists populares de lo-fi, ao menos na minha opinião, principalmente porque a música é ininterrupta. Nem sequer tem nome. É apenas um som que te ajuda a ficar no estado de concentração que você quer.

Vale o download.

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