Tenho certeza que você já leu por aí: Celeste é um jogo de plataforma 2D que é mais ou menos sobre escalar uma montanha. Mas, para algo que se propõe a simbolizar um movimento ascendente, foi uma surpresa ver como ele me fez mergulhar bem fundo em mim mesmo.

Mais do que andar, pular, escalar e dar o “dash” no ar, a ação mais básica e recorrente que você toma durante o jogo é a de persistir. Morre-se constantemente durante a escalada, mas o jogo não tem absolutamente nenhum interesse em enfregar na sua cara que você falhou.

Não há, como em Mario, um pequeno jingle para marcar a sua morte. Não há nenhum contador de vidas, ou de moedas, ou do que quer que seja, que diminua. Você não é punido com perda significativa de progresso. Você não perde nada. Celeste não se interessa por isso. Celeste quer sair do caminho rápido, quer que você tente de novo.

Celeste quer que você consiga.

Eu sempre quis alguém que despertasse em mim o que esse jogo despertou, sabe?

Desistir é uma coisa que me vem com facilidade. Já desisti de uma faculdade depois de três semestres. Já desisti de um relacionamento depois de seis anos. Já desisti de projetos, de empregos, de amizades, de planos, de carreiras inteiras! Dietas e rotinas, horários de sono e de despertador. Já desisti de um blog cujo nome, ironicamente, era “Continue”. Já estudei para ser designer gráfico, jornalista, desenvolvedor de software e tradutor. Total ou parcialmente, desisti de todas essas coisas e muitas outras. Já comecei terapia pra falar sobre isso. Desisti da terapia também.

Algumas dessas desistências foram bem pensadas. “Ajustes de rota”, priorizações, escolhas de focar em uma coisa em detrimento de outras. Mas estou mentindo se disser que esse foi o caso da maioria. A maioria dessas desistências foram apenas desistências mesmo. Momentos em que eu disse para mim mesmo “não vou conseguir” e parei de tentar.


Celeste, no começo, era só um jogo. Comprei a ideia da protagonista Madeline: ela queria subir a montanha sem nem saber direito o motivo, só pelo desafio — e eu topei esse desafio também sem saber o que me esperava.

Morri bem pouco nas primeiras fases, mas aos poucos as coisas foram ficando mais difíceis. Cada nova área trazia consigo surpresas. Alguns lugares pediam calma e controle de impulsos. Outros, pediam observação de padrões de movimentação rítmicos: os perigos existem e se movimentam em seus próprios compassos, alheios a mim, e eu tenho que observar e passar por eles nas brechas em que isso for possível. Jogo de cintura. Ênfase no contratempo.

Foi muito comum, durante a minha jornada, me deparar com obstáculos que geravam imediatamente um pensamento derrotista. “Ok, disso aqui não vou passar. Não tem como!” Mas algo no jogo não me deixava desistir, e invariavelmente dentro de uns 15 minutos eu estava fazendo progresso.

Celeste sabe que gera essa ansiedade e faz isso de propósito. Com propósito. Do level design à trilha sonora, tudo contribui para gerar um senso de eustress — uma ansiedade positiva.

Porque, de novo: Celeste não facilita as coisas para você. Celeste é difícil. Mas ele não é difícil porque quer te derrotar. Ele quer te mostrar que você consegue. Ele sabe que você é capaz e te ajuda a se dar conta disso.

0.1% melhor

Praticamente qualquer pessoa consegue passar da primeira tela do jogo. Por curiosidade ao escrever este parágrafo, dei o meu Switch na mão da minha mãe, que nunca jogou nenhum jogo de plataforma 2D com um controle de videogame. Ela demorou menos de dez minutos para passar do prólogo. Com mais uns 30 ou 40, certamente passaria da primeira fase inteira.

Cada tela nova é apenas 0.1% mais desafiadora que a anterior, num desafio perfeitamente progressivo. Isso significa que você sempre está preparado. Você sempre é capaz.

Se você foi capaz de chegar até aqui, você também vai conseguir passar daqui.

Isso é tão válido na segunda tela do jogo quanto na penúltima.

O lance é que isso também é válido fora do jogo, na vida. É fácil passar batido por essa observação, mas acho crucial que ela seja entendida. Foi por causa desse tipo de paralelo que Celeste se tornou mais do que um simples jogo pra mim.

Esse processo de melhoria incremental da capacidade do jogador se repete tantas vezes que escancara uma verdade que eu às vezes esqueço:

Se você melhorar só 0.1%, porém muitas vezes, depois de algum tempo você estará consideravelmente melhor. Seja no que for. E depois de mais algum tempo você estará realmente muito bom naquilo, a ponto da sua habilidade ser surpreendente para as outras pessoas.

Meu irmão assistiu enquanto eu tentava o desafio autoimposto e completamente opcional de passar de uma das fases mais difíceis do jogo sem morrer nenhuma vez (o jogo não pede e não espera que eu complete esse desafio, mas oferece um prêmio simbólico para quem conseguir). Eu já havia jogado Celeste por umas cinquenta horas comulativas e já havia tentado aquele desafio em específico tantas vezes nas últimas duas semanas que raramente morria antes da metade da fase. Que era longa. Do ponto de vista dele, aquilo era uma performance quase sobre-humana. Eu reagia a coisas aparentemente antes delas acontecerem, eu improvisava em cima de erros e acontecimentos aparentemente caóticos com a desenvoltura de um jazzista perfeitamente confortável com o tom e a escala em que está tocando, ainda que não saiba ainda qual nota específica vai tocar daqui a dois segundos.

“Tu é doente”, meu irmão disse.

O que ele não viu foi que, 50 horas antes, eu não tinha mais habilidade do que ele teria ao pegar o jogo pela primeira vez. Eu só fiquei 0.1% melhor milhares de vezes.

O outro Fabio

Anos atrás, enquanto eu fazia terapia, o meu psicólogo propôs um exercício. Havia uma terceira poltrona, além das duas em que nós estávamos, e ele pediu que eu imaginasse nela a personificação do “outro Fabio”. O Fabio que falava dentro da minha cabeça as coisas como “você não vai conseguir”, “você não merece isso”, “você não é bom o suficiente”. O meu terapeuta conduziu uma conversa, durante esse exercício, entre esse “outro Fabio” e eu, a fim de que ambos nos conhecêssemos melhor. Afinal, já convivíamos muito dentro dos meus diálogos mentais.

A Madeline também tem a “outra Madeline”. Spoilers me impedem de falar mais do que isso, mas digo que o diálogo temático e narrativo entre elas foi tão interessante e catártico quanto o meu poderia ter sido naquela sessão de terapia.

Em Celeste, essa insegurança, essa ansiedade e autocobrança, esses medos internos, são literalmente um dos personagens que você encontra durante a jornada. Tanto você, o jogador fora da tela, quanto você, a personagem Madeline dentro da tela, interagem de maneiras temática e narrativamente muito interessantes com essa personificação de inseguranças e ansiedades.

10.748

Existe uma tela muito bonita no jogo, que é a tela logo antes dos créditos. Quando eu cheguei a ela e “terminei” o jogo, bateu um orgulho forte, mais especial do que em outros jogos. Tirei screenshots pra registrar o momento no álbum do Switch e foi isso.

Porém, existe outra tela, que, hoje, me causa bem mais orgulho do que aquela. É a tela que mostra o contador de quantas vezes eu morri no jogo.

Me pareceu somente um comentário espirituoso quando o jogo falou, na tela de loading da segunda fase, que eu deveria ter “orgulho” do meu contador de mortes. Não pensei muito naquilo. Mas à medida que o contador passou de 100, depois de 1.000, depois de 5.000, eventualmente de 10.000, a minha relação com esse número foi mudando. Ficou clara uma coisa: para mim, esse contador não representa o número de vezes que eu falhei, mas sim o número de vezes que eu não desisti.


Com isso, voltamos ao tema da desistência. Tenho só mais um pouco a falar sobre isso.

Celeste é um jogo ótimo. Tem média 92 no Metacritic, está no Top 5 dos melhores jogos da biblioteca inteira do Switch — empatado com Mario Kart 8 DELUXE e abaixo apenas de Zelda: Breath of the Wild, Super Mario Odyssey e Undertale. É excelente em todos os aspectos, sejam técnicos, artísticos, narrativos ou de “custo-benefício” (se você quiser olhar para ele como um produto que tem que valer o seu dinheiro). Mas, para mim, ele é muito mais do que isso.

Celeste se tornou imediatamente o meu jogo favorito. Da vida.

Porque ele é ótimo, divertido, desafiador, bonito e gostoso de jogar, sim. Mas também porque, através da obra que ele é, e por dizer o que ele quer dizer, com tanto tato, de maneira pura e direta através da própria jogabilidade e dos temas que ficam tão aparentes a todo momento, Celeste me ensinou coisas. Me ensinou que eu não preciso desistir, e que toda desistência pode ser apagada com uma nova tentativa. E que cada tentativa nova não precisa — não deve! — carregar consigo o peso da falha anterior.

Considero que falhei ao parar de escrever profissionalmente (mesmo tendo sido uma escolha). Falhei ao me permitir ficar tanto tempo não fazendo algo que eu gosto por enxergar qualquer retomada como uma admissão de fracasso. Por pensar que, se eu ficar quietinho no meu canto, talvez ninguém lembre de mim, talvez meus fracassos passem despercebidos.

Celeste me ensinou que sucesso é só questão de esforço. No sentido de que, se eu continuar tentando, vou conseguir. Se eu tentar de novo, um fracasso não significa nada além de um incremento em um contador de não-desistências. E que eu posso e devo ter orgulho disso.