Começou com uma sacola. Dessas de plástico mesmo, sem marca, sem logo, mas com meia dúzia de CDs dentro. A discografia inteira do The Offspring até aquele ponto.

Um colega da escola tinha e estava levando pra casa. Eu quis saber o que era. Ele ficou surpreso.

— Tu não conhece nenhuma música do Offspring?
— Não.
— Bah. Então leva pra casa. Eu te empresto.

Os melhores amigos são aqueles que você cria dentro da sua cabeça, e o punk rock tem sido meu amigo fiel desde que eu tinha uns 14 anos.

Naquela tarde eu ouvi o homônimo, o Ignition, o Ixnay on the Hombre, o Smash, o Americana e o Conspiracy of One. O impacto que isso me causou fica claro pelo simples fato de que eu ainda lembro, 20 anos depois, os nomes de todos esses álbuns — assim como a maior parte dos nomes e letras das músicas.

Não sei se outro evento da minha adolescência influenciou tanto a pessoa que eu acabei me tornando.

Quando comecei a sair à noite, não fui em baladinhas. A primeira vez que saí já foi com o meu amigo punk rock: fomos a um show super underground e improvisado em Porto Alegre, num lugar que se chamava Casa Rosa. Não lembro se era rosa mesmo. Provavelmente não. Era só uma casa abandonada num canto do centro de Porto Alegre, sem fachada e sem iluminação alguma exceto por uma TV sem sinal pendurada meio alta em uma parede da sala onde as bandas tocariam.

Naquela noite eu vi muita coisa. A primeira delas foi uma dupla de casais num canto, cada um se beijando furiosamente entre si. Achei legal. Segundos depois, os casais trocaram: as duas meninas começaram a se beijar, assim como os dois caras. Achei uau.

Outras primeiras vezes daquela noite:

  • Primeira vez que fiquei bêbado de Campari vermelho (provavelmente a última).
  • Primeira vez que tive que "cuidar" de um amigo que ficou absolutamente bêbado de Campari vermelho, a ponto de passar mal no meio do ambiente da festa.
  • Primeira vez que vi gente usando drogas pesadas, em uma sala escura e de porta fechada.

Felizmente eu soube me envolver somente com coisas não demasiadamente autodestrutivas.


Quem se importa com a música

A coisa esquisita sobre ir em shows underground de punk rock é que a música é, estranhamente, a última preocupação. Existe uma intenção de música ali, mas ao mesmo tempo essa intenção não é exatamente musical. É puramente energética.

Naquele dia eu vi uma banda chamada Hauri, mas não se podia dizer que a banda estava fazendo música. Não havia o mínimo necessário de estrutura, equipamento ou acústica para que qualquer coisa que saísse dali fosse música propriamente dita. O que havia era um acordo implícito entre o público e a banda de que todas as partes se concentrariam no único aspecto realmente palpável da música: a energia. A agressividade, a urgência, a catarse de estar ali, num lugar escuro, com pessoas tão diferentes do mundo quanto cúmplices entre si, ouvindo a baqueta na caixa, ouvindo a distorção da guitarra no máximo, ouvindo o vocalista cantar palavras que absolutamente ninguém entendia alternadas com tragadas no cigarro que todo mundo fumava por tabela.

Era para isso que todo mundo estava ali. Pela energia. Porque todo mundo era amigo do punk rock, e o punk rock era amigo de todo mundo ali.


Acabei ficando meio amigo do vocalista e guitarrista da Hauri também. Um dia ele foi na minha casa e ficamos tocando guitarra. Lembro bem de como foi importante compartilhar essa paixão pelo som com alguém que se sentia da mesma forma.

Lembro que ele parou pra fumar na janela e começou a falar sobre como Lagwagon era uma das bandas mais fodas do mundo e sobre como “International You Day”, do No Use For a Name, era a música que ele mais gostaria de ter composto na vida. (Em tempo, vim a concordar principalmente com essa segunda afirmação.)

Você não?

Eventualmente completei o círculo, de certa forma: montei a minha própria banda com outras dessas pessoas. Tocávamos covers de Pennywise, Dead Fish, Millencolin, No Use For a Name e também do Offspring. Eu escrevia umas músicas. Talvez tenhamos chegado relativamente perto de fazer algum sucesso, aproveitando a onda do rock que estava surgindo naquela época graças ao estouro do CPM 22 com “Regina Let’s Go”. Chegamos a tocar em alguns palcos mal iluminados, mas não acho que ninguém tenha chegado a ouvir alguma coisa. Não faz mal.

O punk rock é o amigo que te apoia incondicionalmente, mesmo que — principalmente se — o que você estiver fazendo for transgressor ou inconsequente. Com o passar do tempo e com a vida adulta se impondo cada vez mais, a minha amizade com o punk rock ficou muitas vezes em segundo plano, mas toda vez que a gente se reencontra eu lembro, visceralmente, com uma emoção difícil de explicar, do quanto essa amizade é necessária. Sem ela, eu corro o risco de me levar a sério demais. De me achar adulto demais. De esquecer que a energia dessa amizade é algo que você só perde quando esquece que ela está sempre, sempre, sempre ao alcance.

Você só precisa de uma banda amadora tocando com muita distorção e pouca estrutura a um metro e meio da sua cara. Você só precisa fechar os olhos e pular, balançar os braços, se chocar com as outras pessoas, ajudar alguém a surfar por cima da galera, surfar você mesmo por cima da galera. Gritar “aê!!” ou “caralho!!!” entre uma música e outra enquanto a microfonia machuca as têmporas. Tomar cerveja de qualidade questionável até não saber se a dor de cabeça é alcoólica ou do abuso físico a que você submeteu seus ouvidos nas últimas duas ou três horas. Você só precisa ser amigo disso.

Bom, você eu não sei. Mas eu sim.

So if you understand me / And if you feel the same / Then you will know what nitro means / You’ll live like there’s no tomorrow — ain’t gonna waste this life