Me enviaram este poema, e, como sempre acontece quando me deparo com poesia, não soube o que fazer a respeito:

Poesia me deixa confuso.

Expliquei essa confusão à pessoa:

E segui desarmado.


Em paralelo, faz algum tempo que venho curtindo muito o trabalho musical do Donald Glover, que grava músicas sob o nome Childish Gambino.

Os dois primeiros álbuns dele, Kauai e Camp, são de pop e rap, respectivamente. Fui pego em cheio especialmente pelo Camp porque é um álbum no qual ele fala extensamente sobre a vida e as experiências dele de maneira bem “explicativa”. Didática, até. Tipo, “deixa eu te explicar como é e como foi ser eu”.

É um álbum de letras extensas, frases longas, rimas bem construídas, estruturas bem pensadas. Um álbum que te leva ao Genius para dissecar as ideias, as referências, as menções implícitas.

Já o álbum mais recente dele, chamado Awaken, My Love!, muda completamente o estilo musical. Saem o rap e a mente, entram o soul e alma. Essa semana estive meio triste e melancólico em alguns momentos. Decidi ouvir mais desse disco em específico. Um disco de soul é um bom companheiro pra quem está com a alma pedindo socorro.

Procurando mais informações sobre o álbum, acabei lendo uma entrevista na qual Gambino disse que esse disco saiu desse jeito justamente por uma vontade de ir contra a forma como ele fez os discos anteriores. Ele falou algo sobre o fato dos álbuns anteriores serem muito "escritos" — ele sentava para escrever as letras e os arranjos e ficava até concluir que havia dito o que queria dizer da melhor forma possível. Me identifiquei com isso.

O Awaken, My Love! foi o contrário: ele quis simplesmente sentir, sem pensar demais, e colocar os sentimentos em músicas de modo que essas músicas não se preocupassem em dizer muito, apenas fizessem sentir.

Um trecho dessa entrevista com a Billboard:

“Lembro de ouvir músicas que o meu pai colocava para tocar — álbuns do the Isleys ou do Funkadelic — e de não não entender o sentimento que eu sentia. Lembro de ouvir um grito do Funkadelic e ficar tipo ‘Uau, isso é sexual e também é assustador’. E de não ter um nome para isso, também; só ter um sentimento. Isso é que fazia ser tão bom.”

Abandonar essa coisa de fazer sentido era algo que o intrigava: ao passo em que álbuns anteriores do Childish Gambino apresentavam acrobacias verbais e uma torrente incansável de parábolas — tudo ‘muito escrito’, em suas palavras — , ele encarou Awaken como “um exercício apenas de sentimento e tom”.

Esse exercício fica aparente em músicas como a extremamente sentimental The Night Me and Your Mama Met, que não tem letra mas fala muito, ou Baby Boy, cuja letra não expressa nenhuma ideia complexa, mas sim apenas um sentimento visceral e urgente: o medo de perder contato com o filho recém-nascido quando o relacionamento dele com a mãe da criança invariavelmente se deteriorar.

Música sempre me ajudou muito, de maneiras nem sempre imediatamente óbvias. Talvez esse disco específico tenha vindo nesse momento específico pra tentar me mostrar a importância de sentir mais e entender menos. Nem tudo precisa ser entendido.

Por exemplo, poemas.

Acho que agora entendi.