Quanto mais eu penso, mais eu gosto

Não é exagero dizer que eu estava com medo do final de How I Met Your Mother. Pelos comentários de amigos nas redes sociais, eu achei que a série acabaria de um jeito terrível — ruim, triste, sem sentido. Vi pessoas falando de estarem “traumatizadas”. Vi gente falando que nunca mais confiaria em outra série.

Terminei a nona temporada um punhado de semanas atrasado em relação a essas pessoas. Sem traumas, sem revolta, sem abalos na capacidade de confiar em outras narrativas fictícias.

A verdade é que eu gostei.


Logo que terminei de assistir, o fato de eu ter gostado não estava bem claro. A minha reação emocional às últimas cenas foi meio inerte, algo como: “ok, isso está acontecendo”. Sem pender nem para o lado do “que animal isso que isso está acontecendo!”, nem do “que horrível isso que está acontecendo”. Foi como ver uma folha cair, um carro passar, uma pessoa andar. Simplesmente aconteceu.

Eu tive a impressão de ter gostado não tanto por ter gostado, mas sim por não conseguir concordar com o povo que falou mal.

Comecei a ler um monte de coisas na internet sobre o final — muitas das quais destruíram completamente as escolhas narrativas da série —, e também não consegui concordar com a maioria delas.

Com o tempo, especialmente após uma discussão com um amiga, consegui colocar meus pensamentos em ordem. Agora tenho uma visão bem coerente sobre por que o final de How I Met Your Mother não foi apenas bom, como foi o melhor que poderia ter sido.

1. Foi coerente com a vida real e com o universo da série

O primeiro argumento da minha amiga no Facebook foi que o final não foi coerente com os acontecimentos recentes nas vidas dos personagens. Essa foi uma crítica que vi bastante em outros textos, também. Principalmente no que diz respeito ao casamento da Robin e do Barney. Diz-se que aquilo não serviu para nada, já que foi tudo desfeito no final.

O que eu pergunto é: desde quando a vida é coerente? Tudo que você fez na vida foi essencial para você chegar onde está hoje? Por acaso não aconteceram coisas inesperadas? Desvios de rota ou tempos perdidos? Por acaso você nunca passou um enorme tempo agonizando decisões que pareciam importantíssimas, mas que acabaram tendo absolutamente nenhuma consequência no cenário geral da sua vida?

A vida não é um livro bem escrito, onde todas as pontas soltas se amarram coerentemente no final, e descobre-se que tudo teve um propósito para mover a história para onde ela terminou.

Mesmo sendo uma comédia caricata, How I Met Your Mother acabou se posicionando mais próxima da vida real do que da ficção.

Se foi de maneira consciente ou acidental, não se sabe. E eu, particularmente, não me importo.

É claro que a série poderia ter contado a mesma história, com o mesmo final, de um jeito melhor e mais eficiente. Ela tropeçou mesmo, em diversos momentos. Mas não imagino um final melhor do que esse, se outras coisas acontecessem. Nem mesmo me ponho a imaginar, pelo mesmo motivo que não considero saudável ficar imaginando cenários “e se?” na minha própria vida.

2. Todo mundo teve um final feliz

Comédias quase sempre precisam de finais felizes. A parte difícil é como fazer isso sem soar bobo ou clichê. Nesse sentido, How I Met Your Mother teve um final surpreendentemente bem feito.

Todo mundo terminou bem, mesmo com as coisas tristes que aconteceram. Todo mundo teve seu desfecho.

O Marshall e a Lily ganharam mais um filho, expurgaram o último fantasma que ainda pairava sobre o relacionamento firme deles — a fuga dela pra San Francisco na segunda temporada — e continuam sendo o casal modelo da galera.

Finalmente, o amor da vida dele

O Barney não mudou muito (seria incondizente se ele mudasse) e vai continuar sendo solteirão, mas encontrou um pouco de juízo e provavelmente vai ser um pouco menos misógino, agora que teve uma filha. O final dele foi o menos satisfatório, tocando naquela questão egoísta de que os misóginos só melhoram quando consideram o impacto das suas ações nas pessoas próximas a eles, e não naquelas que não os interessam. Porém, dado que o personagem dele sempre foi o mais exagerado e caricato da série, não sei se tinha como ele ter um final muito mais positivo do que esse.

O Ted finalmente encontrou a pessoa que procurou por 9 longos anos. Ele ficou com ela por 11 anos maravilhosos, nos quais teve e criou dois filhos compreensivos, que apoiaram que ele tocasse em frente a vida amorosa sem ficar preso a um passado tão difícil. Se por um lado eles perderam a mãe cedo demais, por outro eles “felizmente” (muitas aspas aqui) não tiveram tanto tempo para se apegar tanto assim a ela — ela deve ter morrido quando eles tinham pouco menos de dez anos — e por isso aceitam a tia Robin numa boa como parceira para o pai delas.

A Robin abriu mão de passar mais momentos com os amigos para atingir o único objetivo que ela sempre teve na vida: atingir o topo do sucesso na carreira de jornalista, custe o que custar. Isso sempre foi o que a atrapalhou em relacionamentos (inclusive com o Barney). Depois disso ela estava pronta para ficar com alguém — e quem melhor do que o Ted?

Acima de tudo, quem teve o final mais feliz foi a Tracy, a mãe do título da série. Depois da morte do Max, ela achou que nunca mais “ganharia na loteria”, mas encontrou o Ted e conseguiu passar o resto da vida ao lado dele, ter dois filhos e tudo mais. Uma vida longa não é necessariamente melhor do que uma vida curta, e a vida curta dela foi incrível e muito feliz.

Tudo fez sentido. Até o Ranjit se deu bem!

E tem mais:

3. O Ted tinha mesmo que ter ficado com a Robin

Há quem pense que o Ted foi um prêmio de consolação para a Robin, e que eles só terminaram juntos por uma teimosia dos criadores da série em usar o final que estava planejado e parcialmente filmado desde a segunda temporada.

Eu não passo nem perto de concordar com isso.

A Robin passou por toda a história dela na série, ficou com o Ted, terminou com o Ted, ficou com o Enrique Iglesias, terminou com o Enrique Iglesias, ficou com Barney, terminou com o Barney, e nunca nada dava certo porque em algum momento todos esses relacionamentos atrapalhavam ela na carreira. Então ela resolveu ficar sem ninguém, até mesmo sem os amigos, e acabou chegando onde sempre quis estar: no topo da carreira. Agora sabe o que cabe na vida dela, finalmente? Uma família!

CHALLENGE ACCEPTED.

  • OPÇÃO A: Ela vai para o bar conhecer uns caras aleatórios até achar alguém, apesar do fato de que ela já tem mais de 40 anos, é rica e famosa (ou seja: grandes chances de dar merda, encontrar uns caras interesseiros que só querem ela como troféu).
  • OPÇÃO B: Ela fica com um cara que ela conhece há 20 anos, de quem ela sempre gostou, que sempre gostou dela de volta, e que, por acaso, finalmente superou a morte da ex-mulher.
E foi.