Por que ter um blog faz total sentido para mim — e talvez faça para você também — mesmo uma década após a era de ouro deles.

Muita coisa muda na internet de ano para o outro, de uma década para outra, mas uma coisa permanece tão verdadeira em 2019 quanto em 2009: a gente gosta de falar e sente que tem muito a dizer.

Além das ideias e opiniões que temos sobre as coisas que acontecem — dos rumos da política ao fast food novo que abriu no bairro —, queremos mostrar as nossas fotos, recomendar músicas, falar sobre o filme que assistimos, ajudar a espalhar aquele vídeo sensacional que encontramos no YouTube, papagaiar a ideia do último livro bacana que passou pela nossa mão. Jogos, quadrinhos, notícias, viagens, polêmicas. Nós queremos falar sobre as coisas.

Mas, apesar da vontade de falar ainda ser a mesma, o como, o onde e o para quem a gente tem falado mudaram muito nesses últimos dez anos.

E não completamente para melhor.

Precisamos falar sobre redes sociais.

Como

Você não se incomoda com o número de diferentes identidades que assume na internet?

No Twitter eu sou uma pessoa, no Facebook eu sou outra e Instagram sou uma terceira. No Reddit eu também sou diferente, um ser anônimo com username engraçadinho. Quando o que eu quero falar é especificamente sobre filmes que assisti ou livros que li, eu vou para o meu Letterboxd ou o Goodreads. Quando quero compartilhar um acontecimento ou comentar alguma coisa interessante, muitas vezes posto em um grupo de Telegram com amigos mais próximos.

Em cada um desses lugares eu sou uma pessoa diferente falando sobre coisas diferentes de jeitos diferentes. Versões desassociadas entre si da mesma personalidade. Na internet, #somostodos #KevinWendellCrumb. Vamos de Hedwig a Beast de uma aba para outra, de um app para o outro.

Partes de mim estão espalhadas por aí, mas em nenhum lugar eu estou inteiro.

yellow flowers with green stems
Foto: Georgia de Lotz / Unsplash

Onde

O meio é, cada vez mais, a mensagem. A plataforma que você está usando para falar alguma coisa exerce um poder surpreendente de alterar a forma como você vai falar.

Por exemplo: se quero falar algo sobre algum jogo interessante que joguei, normalmente vou para o Reddit ou Twitter. São os lugares onde essas conversas acontecem melhor. Mas no Reddit sou encorajado pelos mecanismos do meio a me expressar através de comentários em posts populares, não tanto nos meus próprios, porque é bem difícil conseguir tração em um post novo bo Reddit. Enquanto o Twitter também tem as suas próprias regras e é estruturado do seu próprio jeito: eu sei que as pessoas passam pela timeline correndo e distraídas, dedicando um ou dois segundos para cada tweet, então eu sei que tenho que ser sucinto. Nuances são desencorajadas. Gifs ajudam. Qualquer coisa maior do que dois parágrafos é textão.

O mesmo acontece no Instagram, onde o ideal é não falar muito, mas sim tentar fazer com que os outros falem comigo atrás da(s) minha(s) imagem(s). Ou no Facebook, onde as reações indesejadas de parentes e conhecidos fisicamente ou moralmente distantes colorem toda e qualquer coisa que eu possa querer expressar, e onde a vontade de ganhar curtidas é inseparável da vontade de falar algo coerente e bem pensado — mas sem ser textão também!

Se o palanque onde estou influencia tanto assim o meu discurso, fez sentido para mim tomar a decisão de me expressar no lugar mais neutro possível. Um lugar que, se tiver suas próprias idiossincrasias, que elas sejam as que eu mesmo coloquei. Um lugar como este blog.

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Foto: Simone Hutsch / Unsplash

Para quem

Outro problema que enfrentamos nos lugares onde normalmente mais falamos as coisas é a questão de quem está ouvindo. Facebook, Twitter, Medium, YouTube... esses lugares, e outros, escolhem por você quem é que vai ter contato com a ideia que você publicou.

Quando você posta um bom conteúdo no Facebook, para quem você está agregando valor? Para você e para quem lê, sim, mas também, e principalmente, para o próprio Facebook. Quanto mais coisa boa você posta lá, mais as pessoas que te seguem consideram impraticável sair de dentro da bolha do Facebook. E cada vez mais tem ficado claro para mim e para muita gente que talvez a gente devesse ficar bem menos lá dentro.

Recentemente vi um texto muito bonito e emocional de um amigo no Facebook, sobre a experiência de ter um filho com uma doença. Um texto maravilhoso, porém confinado a um post de Facebook. Aquilo merecia estar num livro, numa revista de ensaios, em algum lugar de destaque, mas não: estava à mercê do algoritmo do Facebook, e com vida útil decidida por ele. Preso num ambiente fechado, agregando valor aos acionistas.

Existe um motivo por que não vemos grandes pinturas em paredes de banco. Não é o lugar delas.

Um blog dá ao leitor a liberdade de ter contato com absolutamente tudo que um autor publica, na hora em que ele publica, em ordem. (Inclusive fica a dica: aplicativos de assinatura de RSS ainda existem — provavelmente escreverei sobre eles em breve.) Isso vale tanto no dia da publicação do post quanto cinco anos depois.

É bom para o autor, mas talvez seja melhor ainda para o leitor. Afinal, você realmente quer deixar o Facebook ou o Twitter escolher por você 100% do conteúdo que você consome, além de quem é que vai consumir o seu conteúdo?

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Foto: Erik Witsoe / Unsplash

Em resumo, um blog é como o seu perfil no Facebook, só que melhor — porque é realmente seu.

É um grito de resistência, é o mínimo que posso fazer para ter uma vida digital melhor, me colocando a uma distância segura das redes sociais que todos concordam serem nocivas mas quase nunca fazem nada a respeito.

Eu sei que muita gente não tem mais paciência para acompanhar conteúdo que não chega a elas automaticamente, mas imagino que alguns tenham. Imagino que alguns — não todos, mas alguns — estão lendo isso e balançando a cabeça afirmativamente. Se um desses for você, vai ser legal ter você por aqui.

Boas-vindas ao meu blog! 📝